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A jornalista do tapete vermelho14. 02. 2015
 
Cena de 'O Grande Hotel Budapeste'
Por Gabriela Reis
 
O ano era 1988 e ela se preparava para sua primeira cobertura. Toda “embonecada”, levava sua credencial de imprensa e dirigia seu Gol em direção a um guarda que apitava e havia várias limousines. Era o Auditório Shrine, e Ana Maria Bahiana entrava pelo tapete vermelho do Oscar – por engano. “Até hoje as pessoas devem achar que tinha uma celebridade muito modesta ali”, brinca a jornalista que tem mais de 25 anos de experiência no evento e já escreveu para O Globo, Folha de São Paulo, Rolling Stone e foi produtora e correspondente da rede Telecine e da Rede Globo em Los Angeles.
 
Às vésperas da 87ª edição do prêmio, que ocorre no próximo dia 22, no Teatro Dolby, em Los Angeles, conversamos com ela para saber muito além das suas apostas para este ano.
 
O Oscar continua sendo a principal premiação do mercado cinematográfico?

Ana Maria. Eu acredito que sim, ainda é o prêmio que um profissional de cinema quer colocar no seu currículo. O Oscar é um prêmio de cinema que é escolhido pelo maior corpo votante de profissionais da área, do maior mercado de cinema do mundo, que são os Estados Unidos. A Índia produz mais filmes e consome mais filmes, mas, em termos de poderio, o volume de dinheiro que é investido e é gerado em cinema nos Estados Unidos ainda o coloca como o maior mercado do mundo. Então, mesmo que você seja um profissional super bem-sucedido no seu país, ser um membro da Academia já mostra que você está em um estágio global. Isso, imediatamente, já coloca o prêmio como algo que uma pessoa que está nessa indústria almeja ter em seu currículo.
 
O que segura o público em frente à TV é o fato de o Oscar deixar a revelação do “Melhor Filme” por último?

Ana Maria. Isso é uma velha estrutura de qualquer espetáculo. O Billy Wilder, que é o meu guru em todos os assuntos audiovisuais, dizia: “guarde o que você tem de melhor para o último ato, porque isso é tudo que a plateia se lembra”. Ao aplicar isso num programa de televisão, que é o que a transmissão do Oscar é, posso garantir que sempre o “Melhor Filme” vai ser a última categoria a ser anunciada.
 
Em sua opinião, o que a Academia tem feito para não perder a audiência?

Ana Maria. Eles têm tentado várias coisas. Uma delas é convocar apresentadores mais jovens, o que às vezes funciona, outras não. Teve aquele ano do James Franco com a Anne Hathaway que foi um verdadeiro caos. Eles estão procurando colocar mais apresentadores internacionais, porque eles compreendem perfeitamente que a indústria norte-americana depende cada vez mais dos mercados internacionais. Os dois produtores de agora [Craig Zadan e Neil Meron] adoram o velho esquema Broadway de musicais, e sempre há uma plateia para esse tipo de musical. Mas eles compreendem que, para pegar uma plateia mais jovem, isso tem que ser reformulado e eles estão procurando se ajustar. A questão é que a Academia se move muito lentamente. A transmissão do Oscar é uma parceria entre a Academia e a rede de televisão que a está transmitindo, então são dois monstros que se movem lentamente tentando chegar a uma conversa que vá tornar o Oscar mais acessível para plateias mais jovens e internacionais.

Por que a Academia se move lentamente?

Ana Maria. Ela tem milhares de pessoas, todas profissionais de cinema, todas trabalhando num ritmo doido, que é a própria indústria. Fazer esse povo todo concordar com alguma coisa é um problema sério de governança. Os projetos circulam lá dentro, mas até que passem pelo processo de serem aprovados são várias tentativas. Eu sou parte de outra entidade que dá prêmios, o Globo de Ouro. Nós somos em muito menos, somos 90 pessoas e, mesmo assim, para você criar uma nova categoria demora alguns anos, uma coisa aparentemente simples. Por exemplo, para nós do Globo de Ouro criarmos a categoria de animação (e eu participei do comitê que fez essa proposta), foram cinco tentativas, cinco anos até os meus colegas se convencerem. Se isso demora cinco anos numa entidade que tem 90 pessoas, você imagina numa entidade que tem 6 mil pessoas que estão pelo mundo fazendo cinema sempre. Então, é ainda mais lento o processo das decisões.
 
Voltando para a questão da audiência. O que a Academia poderia fazer?

Ana Maria. Eu adoro a nova presidente [Cheryl Boone Isaacs]; ela é uma pessoa mais jovem, ela é uma mulher, para início de conversa, negra, uma executiva fantástica, com uma visão completamente diferente daqueles que vieram antes. Desde que ela se tornou presidente, pediu expressamente para a diretoria da Academia que procurasse novos membros. A Academia não tem limite de membros, mas eles procuram sempre agregar de 10 a 20% a mais todo ano. Ela disse: “eu quero que esses 10 a 20% vocês procurem mulheres, de preferência; jovens, de preferência; não brancos, de preferência; e se puder não ser americano, melhor ainda”. E eles estão, basicamente, recrutando, indo atrás dessas pessoas, indo mais a Festivais, estão vendo mais o cinema que não é só o comercial americano e estão atraindo essas pessoas para a Academia.Ela é a pessoa que está investindo no Museu do Cinema, que vai ser basicamente um grande centro de cinema e atividades culturais que, definitivamente, vai aumentar essa integração entre a indústria americana e o mundo. Ela é a pessoa que está apoiando as chamadas embaixadas culturais da Academia, que são visitas de membros da Academia a outras indústrias, a outras produções cinematográficas, para uma troca de experiências. Então, ela está fazendo tudo isso, que não é o Oscar, mas é parte da visão da Academia. Ela tem essa visão de que a indústria, hoje em dia, é multicultural, multinacional.
 
Veterana na cobertura do Oscar, Ana Maria Bahiana fala sobre o formato da cerimônia e a busca pela audiência 
 
Muito se fala do lobby feito pelos filmes para atrair a atenção do público e da Academia. O Oscar não seria um prêmio mais de marketing do que de arte?

Ana Maria. Primeiro vamos definir o seguinte: um prêmio é apenas a opinião de um grupo de pessoas em determinada época. Um prêmio da Academia é dado por pessoas que fazem cinema nos filmes que elas fazem. Uma vez que nós definimos isso, temos um bom perfil de como essas escolhas serão feitas.  O Oscar é um prêmio que não vem com dinheiro nenhum. Você ganha aquela estatueta e leva para casa. Entretanto, ser indicado, poder colocar no cartaz do seu filme “indicado para o Oscar”, imediatamente te dá um recurso para aumentar sua plateia. Por que você acha que determinados tipos de filmes só estreiam no Brasil no começo do ano? Porque o estúdio acha que eles vão ser indicados ao Oscar, ao Globo de Ouro e até ganhar. Querem pôr isso no cartaz e no material de marketing para o filme vender mais nos outros mercados. Quando você faz um filme, o departamento de marketing do estúdio ou da produtora independente olha e diz: “eu acho que esse filme tem chance de prêmio”. Se eu acho que esse filme tem chance de prêmio, eu vou guardar para o final do ano e vou fazer um tipo de campanha que atraia a atenção dos votantes. E os votantes são múltiplos e, às vezes, eles se combinam. Por exemplo, um diretor top é membro tanto da guilda dos diretores [Guilda dos Diretores da América] como da Academia. Então, eu vou fazer uma campanha para os diretores gostarem desse filme e o abraçarem.
 
Eu acho que o Oscar é mais um instrumento de marketing do que um resultado de marketing. As campanhas internas do Oscar são muito maiores do que as campanhas externas. Mas a grande estratégia oculta do Oscar são as alianças, as trocas e as simpatias dentro da Academia. De novo, eles estão votando nos filmes que eles fazem e, sim, uma pessoa pode fazer campanha para o próprio filme. Pode dizer para um colega: “vote no meu filme, que ano que vem eu voto no seu”. Isso é perfeitamente lícito. Esse é o mundo que, no final, resulta nas indicações e nos prêmios. Eles estão escolhendo pela visão que eles têm dentro daquilo que eles fazem. Só isso.
 
Há anos a premiação segue o mesmo formato, tendo à frente um anfitrião, apostando no cômico e intercalando com a entrega dos prêmios e apresentações musicais. Você acredita que esse padrão ainda tem fôlego?

Ana Maria. Eu acho que vai ser muito difícil mudar, porque isso ficou como um formato, uma espécie de template, do que é o programa de entrega de prêmios. E, uma vez que isso está cristalizado, eu não vejo como mudar. Se você for olhar, todas as outras entregas de prêmios seguem esse padrão, só que intercalando com coisas que são relevantes ao prêmio. O Grammy, em vez de passar clipe, tem um número musical. Mas é o mesmo tipo. Um formato já estabelecido, e eu não vejo isso mudar, não.
 
Qual mudança você aponta como sendo a melhor que a Academia encontrou para reinventar o Oscar?

Ana Maria. Gostei quando eles passaram a ter a categoria de animação, que foi algo razoavelmente recente. Durante muito tempo a animação entrava no bolo de filme e não tinha uma maneira de ser vista como uma forma específica de linguagem. Eles estão mexendo em uma das maneiras como os documentários e curtas são escolhidos, possibilitando abrir um maior leque. Tudo que leva para uma abertura da visão da Academia, do que é cinema, do que o cinema pode ser, tudo que for feito nesse sentido, eu acho que é no sentido certo. Acho que é no sentido que vai trazer progresso para a Academia, para o prêmio e para o cinema em geral.
 
E o que você acredita que ainda pode ser alterado na premiação?

Ana Maria. Eu gostaria que eles mexessem na categoria “Filme de Língua Estrangeira”. Eu acho que é um sonho distante. Eles andam ajustando e tentando fazê-la mais inclusiva, dando certas facilidades, fazendo pequenos ajustes, mas eu não sei se é o suficiente.
 
O que queria que fosse mexido exatamente?

Ana Maria. Eu queria que parasse de ser concurso de miss. Porque, do jeito que está agora, cada país tem que olhar para a sua produção cinematográfica do ano inteiro e escolher um filme. Um pobre coitado para representar a cinematografia de um país. Eu acho isso um absurdo. Eu entendo porque eles fazem isso, entendo que, para esse monte de gente que faz cinema o tempo todo, ter tempo para acompanhar isso e conseguir criar um mínimo equalizador na quantidade de filmes que eles veem, para incluir a produção cinematográfica internacional de modo mais abrangente, é muito difícil. Mas eu fico desejando que eles mexam nisso. Em tese, já existe uma porta de entrada para isso, que foi a que Cidade de Deus usou. Poucas pessoas sabem, mas qualquer filme, de qualquer nacionalidade, que tenha sido exibido nos Estados Unidos entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de um ano pode concorrer ao Oscar. Foi essa janela que o Cidade de Deus usou para conseguir, finalmente, as indicações que teve no ano seguinte a ele ter sido o representante brasileiro a “Filme de Língua Estrangeira”. Isso é uma abertura. Mas ainda não é o suficiente, porque é muito, muito, muito difícil um filme em língua que não seja o inglês conseguir distribuição e lançamento comercial nos Estados Unidos.
 
Boyhood é um dos filmes com mais indicações ao prêmio
 
A Academia tem 6 mil votantes. Isso torna o Oscar a premiação cinematográfica mais democrática?

Ana Maria. Depende de como você definir “democrático”. Para esses 6 mil votantes, é. Foram estudados vários sistemas de voto, e a Academia chegou à conclusão de que o Congresso australiano tem a melhor e mais igualitária maneira de contar votos para a passagem de lei. Eles usam o mesmo processo para dar o maior número possível de chances de todas as opiniões dessas 6 mil pessoas serem representadas em prêmio.
 
Embora o Oscar tenha sido criado para premiar a indústria cinematográfica, uma forma de ele se atualizar não seria contemplar filmes para a televisão?

Ana Maria. Eles não vão mexer nunca na televisão. A televisão tem a sua própria Academia [Academia de Artes e Ciências Televisivas] e é um acordo entre eles. A não ser que as duas Academias se fundam (o que pode acontecer no futuro), isso não vai acontecer. A mudança que pode acontecer, talvez, daqui a dez anos, é a Academia entender que a distribuição de cinema hoje passa por uma coisa que eles acham que é televisão, mas não é, que é a Netflix, a Amazon, o streaming. Existe hoje uma massa de filmes que eu, por exemplo, não vejo no cinema. Você lançar um filme no cinema está se tornando proibitivo para todo mundo que tem orçamento pequenininho. Nesse momento, eles só consideram como filme ou algo premiável aquilo que estreia no cinema. Isso, daqui a pouco, vai ser privilégio só de filmes gigantescos. Tudo que é filme médio para menor, em termos de orçamento, está indo para esses canais online de distribuição, que não são a TV, são outra coisa. Eu espero e acredito que em algum momento a Academia vá reconhecer isso. Mas, como eu falei lá no começo, a Academia se move lentamente, e isso também depende da mudança do corpo votante.
 
A escolha do apresentador para o Oscar é sempre um assunto controverso. Em sua opinião, quais características deve ter o escolhido?

Ana Maria. Essa é uma decisão que é tomada pelos produtores em conjunto com a diretoria da Academia e a ABC, que é a rede de televisão que produz a parte televisiva do evento.  Tem que ser uma pessoa cheia de energia, cheia de pique, que é uma coisa que a gente associa com juventude, e, ao mesmo tempo, tem que ser uma pessoa extremamente experiente, capaz de improvisar, capaz de se adaptar a situações absolutamente imprevistas. Se você aplica essas duas coisas, não tem muita gente capaz disso tudo, não.
 
Ellen DeGeneres conquistou o público com seu humor amigável. O que podemos esperar de Neil Patrick Harris?

Ana Maria. Eu gosto muito dele e ele tem se saído muito bem em todos os outros eventos que apresentou. Ele é um cara extremamente talentoso, um cara que tem essa combinação: ele tem pique, tem energia, sabe improvisar, sabe lidar com situações, canta, dança. Eu acho que foi uma boa escolha.
 
Quais são as suas apostas para “Melhor Filme” na edição deste ano?

Ana Maria. Tem três filmes na luta: Birdman, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste. Vai ser entre esses três aí. Eu amo todos esses, são os meus três favoritos do ano. Para mim, qualquer um desses que ganhar está ótimo (risos). Vou ficar superfeliz.
 
Birdman: prêmio de melhor filme?
 
 
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